HPV e Sífilis: Duas ISTs que se Imitam e se Potencializam

HPV e Sífilis: Duas ISTs que se Imitam e se Potencializam

A sífilis é uma das ISTs mais antigas e ainda uma das mais prevalentes no mundo. Sua associação com o HPV vai além da coincidência: as duas infecções compartilham vias de transmissão, se favorecem mutuamente e — ponto crítico — suas lesões podem se imitar com perfeição, levando a erros diagnósticos graves.

O Que é a Sífilis?

A sífilis (também chamada de lues) é causada pela bactéria Treponema pallidum. É uma IST sistêmica — pode acometer múltiplos órgãos e sistemas ao longo do tempo — transmitida principalmente por contato sexual, mas também por via transplacentária (da mãe para o feto) e por transfusão sanguínea.

Uma característica marcante da sífilis é a evolução em fases com períodos de remissão espontânea — os sintomas somem sem tratamento, criando falsa impressão de cura. A bactéria, entretanto, permanece no organismo e causa danos progressivos.

Fases da Sífilis

Sífilis Primária — O Cancro Duro

O primeiro sinal é o cancro duro: úlcera única, de bordas endurecidas, indolor (ao contrário do cancro mole), de base limpa, que aparece no local de inoculação — pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus ou boca. Surge em média 21 dias após a contaminação e desaparece espontaneamente em 3 a 6 semanas, com ou sem tratamento.

Na mulher, a lesão pode estar dentro da vagina ou no colo uterino — invisível ao exame externo. Isso explica o subdiagnóstico feminino e a transmissão silenciosa.

Sífilis Secundária — O Condiloma Plano

Surge 6 a 8 semanas após o cancro duro. Manchas eritematosas nas palmas das mãos e plantas dos pés são clássicas. Na região genital e perianal, surgem os condilomas planos — pápulas úmidas, planas, de superfície macerada, altamente contagiosas e ricas em Treponema pallidum. São o principal ponto de confusão com o HPV.

Também podem ocorrer: febre baixa, mal-estar, adenopatia generalizada, lesões em mucosas (placas mucosas) e alopecia em placa. Todos esses sintomas desaparecem espontaneamente, mas não indicam cura.

Sífilis Terciária

Ocorre anos a décadas após a infecção não tratada. Lesões gomosas destrutivas, comprometimento cardiovascular (aneurisma de aorta), neurossífilis (paralisia, demência, cegueira). Potencialmente fatal.

Sífilis Congênita

A sífilis não tratada na gestante pode causar: aborto tardio, prematuridade, natimorto ou sífilis congênita — com lesões ósseas, hepáticas, neurológicas e cutâneas no recém-nascido. O pré-natal adequado com VDRL é a estratégia preventiva central.

Confusão Diagnóstica: Condiloma Plano vs. Condiloma Acuminado

Esta é a armadilha diagnóstica mais importante da associação HPV-sífilis. O condiloma plano da sífilis secundária e o condiloma acuminado pelo HPV podem ser indistinguíveis clinicamente:

  • Condiloma plano (sífilis): úmido, macerado, plano, de superfície irregular, altamente contagioso, rico em Treponema. Geralmente perianal ou genital. Não responde com tratamento para HPV.
  • Condiloma acuminado (HPV): seco, em couve-flor ou papilomatoso, acetobranco com ácido acético. Responde ao laser e outros tratamentos específicos.

Toda lesão perianal ou genital atípica, úmida, plana ou não responsiva ao tratamento para HPV deve ter VDRL solicitado imediatamente. A histologia diferencia os dois — e o erro terapêutico pode ter consequências sérias.

Diagnóstico da Sífilis

  • Microscopia de campo escuro: visualiza o Treponema em material fresco da úlcera — padrão-ouro na fase primária.
  • VDRL (Venereal Disease Research Laboratory): teste não treponêmico de triagem. Positivo na fase secundária. Títulos decrescentes monitoram a resposta ao tratamento.
  • FTA-ABS (Fluorescent Treponemal Antibody Absorption): teste treponêmico confirmatório. Permanece positivo mesmo após cura.
  • RPR: alternativa ao VDRL para triagem.

Tratamento

O tratamento da Sífilis envolve uso de antimicrobiano injetável. O tempo de tratamento e esquema proposto depende da fase da sífilis e seu acomentimento, uma vez que a neurossífilis possui um tratamento diferenciado.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A sífilis some sozinha?

Os sintomas desaparecem espontaneamente em cada fase — mas a bactéria permanece no organismo. A cura real só ocorre com tratamento com antibiótico.  Sem tratamento, a sífilis progride silenciosamente para fases mais graves.

Como diferenciar sífilis de HPV sem biópsia?

O VDRL é o primeiro passo: positivo em praticamente todos os casos de sífilis secundária. A biópsia confirma: o condiloma plano mostra infiltrado plasmocitário e Treponema à coloração de Warthin-Starry; o condiloma acuminado mostra coilocitose e papilomatose.

Grávida com sífilis transmite para o bebê?

Sim — e com alto risco. A sífilis congênita é evitável com tratamento adequado durante o pré-natal. O VDRL deve ser realizado no primeiro e terceiro trimestres de toda gestante.

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