Cancro Mole (Cancro de Ducrey) e HPV: A IST Dolorosa que Facilita o Vírus
O cancro mole é uma IST ulcerativa causada pela bactéria Haemophilus ducreyi. Produz úlceras ( feridas) genitais dolorosas que rompem a barreira mucosa e criam condições ideais para a co-transmissão do HPV e do HIV. O quadro clínico pode ser confundido com sífilis e herpes.
O Que é o Cancro Mole?
O cancro mole — também chamado cancro de Ducrey, em homenagem ao bacteriologista italiano que identificou o agente em 1889 — é causado pelo Haemophilus ducreyi, cocobacilo gram-negativo anaeróbio facultativo. É mais prevalente em países tropicais e em desenvolvimento, especialmente na África subsaariana, Ásia e América Latina.
É chamado ‘mole’ para diferenciá-lo do ‘cancro duro’ da sífilis — a úlcera sifilítica tem bordas endurecidas e é indolor; o cancro mole tem bordas moles e é intensamente doloroso.
Transmissão e Período de Incubação
A transmissão ocorre exclusivamente por contato sexual direto com parceiro(a) infectado(a) e com lesão ativa. O período de incubação é de 3 a 5 dias — podendo se estender até 2 semanas. É mais comum no sexo masculino, em parte porque a lesão é facilmente visível no pênis; nas mulheres, a lesão pode estar em região de difícil visualização.
Apresentação Clínica
- Lesão inicial: pápula eritematosa que evolui rapidamente para pústula e, em seguida, úlcera.
- Úlcera característica: bordas moles e irregulares (não endurecidas), fundo necrótico com exsudato purulento, intensamente doloroso ao toque.
- Localização no homem: glande, sulco balanoprepucial, prepúcio, corpo peniano.
- Localização na mulher: pequenos lábios, fúrcula, vagina, colo uterino — pode ser assintomática quando interna.
- Adenopatia inguinal (bubão): em 30-60% dos casos. Linfonodos inguinais aumentados, dolorosos, que podem se tornar flutuantes e fistulizar espontaneamente.
- Evolução sem tratamento: ao contrário da sífilis, as úlceras do cancro mole NÃO somem espontaneamente — progridem e se agravam.
Diagnóstico
- Clínico: úlcera dolorosa de bordas moles com exsudato purulento — altamente sugestivo.
- Cultura: meio seletivo específico. Sensibilidade limitada (60-80%). Padrão de referência mas pouco disponível.
- PCR para H. ducreyi: maior sensibilidade. Disponível em laboratórios de referência.
- Diagnóstico de exclusão: nos EUA e Europa, o diagnóstico frequentemente é feito por exclusão de sífilis (VDRL negativo) e herpes (PCR HSV negativo) em úlcera genital dolorosa.
Cancro Mole, HPV e HIV: O Triângulo de Risco
A úlcera do cancro mole é uma das maiores facilitadoras de transmissão do HPV e do HIV em áreas endêmicas. Estudos na África demonstraram que o tratamento das úlceras genitais (incluindo cancro mole) reduziu a incidência de HIV em 40% — confirmando a importância das úlceras como amplificadoras da epidemia de HIV. Os mecanismos:
- Ruptura da barreira epitelial: úlcera aberta = porta de entrada direta para HPV e HIV.
- Concentração de células CD4+: a inflamação intensa recruta linfócitos — alvo preferencial do HIV.
- Aumento da carga viral local:a inflamação eleva a concentração de HIV nas secreções.
Tratamento
- Azitromicina 1g oral dose única: primeira escolha — prático e eficaz.
- Ceftriaxona 250mg IM dose única: alternativa eficaz.
- Ciprofloxacino 500mg 2x/dia por 3 dias: atenção para resistência crescente em algumas regiões.
Parceiros dos últimos 10 dias devem ser tratados independentemente de sintomas. Bubões flutuantes podem necessitar de aspiração com agulha grossa — não incisão, que retarda a cicatrização.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Como diferenciar cancro mole de sífilis?
A diferença clínica mais importante: cancro mole é DOLOROSO e tem bordas MOLES; cancro duro da sífilis é INDOLOR e tem bordas ENDURECIDAS. O VDRL diferencia laboratorialmente. Herpes também causa úlceras dolorosas mas com vesículas precedendo as úlceras e sem exsudato purulento.
Cancro mole some sem tratamento?
Não — ao contrário da sífilis, as úlceras do cancro mole não regridem espontaneamente. Progressão e piora são a evolução natural sem antibiótico.
Por que o cancro mole facilita o HIV?
A úlcera aberta elimina a barreira protetora da pele/mucosa,podendo favorecer a entrada direta do HIV. Além disso, a inflamação intensa recruta linfócitos CD4+ para a região — exatamente as células que o HIV infecta.