HPV e HIV / AIDS (SIDA)

HPV e HIV/AIDS: Uma Co-infecção de Alto Impacto

A associação entre HPV e HIV é uma das mais clinicamente relevantes no campo das ISTs. O HIV compromete exatamente o sistema imunológico que controla o HPV — tornando a infecção mais extensa, mais resistente ao tratamento e com maior risco de progressão oncogênica.

O que é o HIV e a AIDS?

O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) é um retrovírus que infecta e destrói progressivamente os linfócitos T CD4+ — as células coordenadoras da resposta imune celular. Quando a contagem de CD4+ cai abaixo de 200 células/mm³ ou quando surgem infecções oportunistas características, o paciente progride para AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), também chamada de SIDA.

É fundamental distinguir os dois conceitos: ser HIV positivo (soropositivo) significa ter o vírus, mas não necessariamente ter a doença. Muitos soropositivos permanecem assintomáticos por anos sem necessidade de tratamento específico — exceto gestantes, para prevenir transmissão vertical. Já o paciente com AIDS apresenta sinais clínicos da doença e CD4+ baixo, exigindo tratamento antirretroviral.

Transmissão do HIV

  • Sexual: relação sexual desprotegida com parceiro soropositivo — principal via de transmissão.
  • Sanguínea: transfusão de sangue contaminado, compartilhamento de agulhas e seringas.
  • Vertical: da mãe para o filho durante a gravidez, parto ou amamentação.

O HIV NÃO é transmitido por: aperto de mão, abraço, tosse, espirro, uso compartilhado de utensílios ou picada de insetos.

Patogenia: como o HIV compromete o sistema imune

O HIV entra no organismo e se liga a receptores CD4 nas células hospedeiras — principalmente linfócitos T CD4+, macrófagos e células dendríticas. Após fusão com a membrana celular, libera seu material genético (RNA) que é transcrito em DNA pelo enzima transcriptase reversa. Esse DNA viral se integra ao genoma da célula hospedeira (provírus) e dirige a produção de novos vírus.

As células dendríticas de Langerhans — primeira barreira imunológica na mucosa genital — capturam o HIV e o transportam aos linfonodos regionais, onde ocorre o contato com linfócitos T CD4+. A depleção progressiva dessas células ao longo de anos resulta em imunodeficiência crescente, tornando o organismo vulnerável a infecções oportunistas e neoplasias.

HPV e HIV: Uma Relação Bidirecional

HIV facilita o HPV

  • HPV mais extenso e multifocal: sem imunidade celular eficiente, o HPV se espalha por múltiplos territórios sem controle.
  • Maior resistência ao tratamento: lesões recidivam com muito maior frequência em pacientes com HIV.
  • Maior risco oncogênico: a incidência de NIC de alto grau, câncer anal, peniano e orofaríngeo é significativamente maior em soropositivos.
  • Tipos mais agressivos: infecções por múltiplos tipos de HPV, incluindo tipos de alto risco, são mais comuns em imunossuprimidos.

HPV facilita o HIV

  • Microtraumas mucosos: lesões por HPV criam descontinuidade da barreira epitelial, facilitando a entrada do HIV.
  • Inflamação local: a resposta inflamatória ao HPV recruta células CD4+ para a mucosa genital — exatamente as células que o HIV infecta preferencialmente.
  • Aumento da carga viral local: a inflamação aumenta a concentração de HIV nas secreções genitais, facilitando a transmissão.

Manejo do HPV em Pacientes com HIV

  • Avaliação multirregional necessária: mapeamento completo de todos os territórios, incluindo canal anal e orofaringe.
  • Anuscopia/HRA de rotina: rastreamento de NIA ( neoplasia intraepitelial anal) indicado anualmente em HSH ( homens que fazem sexo com homens) com HIV.
  • Tratamento mais agressivo: lesões por HPV em imunossuprimidos exigem protocolos mais intensivos e seguimento mais frequente.
  • Suporte imunológico: otimização do tratamento antirretroviral é parte do manejo do HPV — quanto melhor o controle do HIV, melhor a resposta ao tratamento do HPV.
  • Vacinação: a vacina HPV é recomendada para soropositivos até 45 anos — mesmo após início da vida sexual — por benefício documentado. Após os 45 anos pode ser avaliado individualmente sendo seu uso off-label.

Diagnóstico do HIV

  • Teste rápido: resultado em 20-30 minutos, disponível em UBS e em farmácias. Alta sensibilidade.
  • ELISA: teste sorológico padrão para triagem. Janela imunológica de até 30 dias.
  • Western Blot / imunofluorescência: teste confirmatório.
  • Carga viral (PCR HIV): quantifica o HIV no sangue. Monitoramento do tratamento.
  • Contagem de CD4+: avalia o grau de imunodeficiência e orienta o início do tratamento.

Prevenção:  Preservativos (masculinos e femininos), PrEP e PEP.

O que é a PrEP?

Fonte do Ministério da Saúde

Uma das formas de se prevenir do HIV é a PrEP, a Profilaxia Pré-Exposição. Ela consiste na tomada de  comprimidos antes da relação sexual, que permitem ao organismo estar preparado para enfrentar um possível contato com o HIV. A pessoa em PrEP realiza acompanhamento regular de saúde, com testagem para o HIV e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST).

 Como a PrEP funciona?

A PrEP é a combinação de dois medicamentos (tenofovir + entricitabina) que bloqueiam alguns “caminhos” que o HIV usa para infectar o organismo. Existem duas modalidades de PrEP indicadas: a PrEP diária e a PrEP sob demanda. 

  • PrEP diária: consiste na tomada diária dos comprimidos, de forma contínua, indicada para qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade ao HIV
  • PrEP sob demanda: consiste na tomada da PrEP somente quando a pessoa tiver uma possível exposição de risco ao HIV. Deve ser utilizada com a tomada de 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação sexual,  + 1 comprimido 24 horas após a dose inicial de dois comprimidos + 1 comprimido 24 horas após a segunda dose. A PrEP sob demanda é indicada para pessoas que tenham habitualmente relação sexual com frequência menor do que duas vezes por semana E que consigam planejar quando a relação sexual irá ocorrer.  Além disso, as evidências científicas garantem a segurança e eficácia da PrEP sob demanda somente para algumas populações. São elas: homens cisgêneros heterossexuais, bissexuais, gays e outros homens cisgêneros que fazem sexo com homens (HSH), pessoas não binárias designadas como do sexo masculino ao nascer, e travestis e mulheres transexuais – que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol. 

ATENÇÃO: a PrEP só tem efeito protetor se você tomar o medicamento conforme a orientação de um profissional de saúde. Caso contrário, pode não haver concentração suficiente das substâncias ativas em sua corrente sanguínea para bloquear o vírus e você não estará protegido 

Em quanto tempo a PrEP começa a fazer efeito?

  • Mulheres cisgênero, pessoas trans ou não binárias designadas como sexo feminino ao nascer,  e qualquer pessoa em uso de hormônio a base de estradiol, que façam uso de PrEP oral diária, devem tomar o medicamento por pelo menos 7 (sete) dias para atingir níveis de proteção ideais. Antes dos sete dias iniciais de introdução da PrEP, medidas adicionais de prevenção devem ser adotadas.
  • Homens cisgêneros, pessoas não binárias designadas como do sexo masculino ao nascer, e travestis e mulheres transexuais – que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol – e que usem PrEP, seja ela diária ou sob demanda, devem tomar uma dose de 2 (dois) comprimidos de TDF/FTC de 2 a 24 horas antes da relação sexual para alcançar níveis protetores do medicamento no organismo para relações sexuais anais (4, 5). Ressalta-se que os estudos de PrEP sob demanda não apresentam evidências de proteção para relações sexuais (neo)vaginal recepvas. 

IMPORTANTE: É fundamental a testagem regular, a investigação de sinais e sintomas para outras IST. A PrEP previne contra o HIV e permite o diagnóstico e tratamento de outras IST, interrompendo a cadeia de transmissão. O uso do preservativo previne do HIV e outras IST. 

Quem pode usar a PrEP? 

A PrEP é indicada para qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade para o HIV.

Algumas situações que podem indicar o uso da PrEP:

  • Frequentemente deixa de usar camisinha em suas relações sexuais (anais ou vaginais);
  • Faz uso repetido de PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV);
  • Apresenta histórico de episódios de Infecções Sexualmente Transmissíveis;
  • Contextos de relações sexuais em troca de dinheiro, objetos de valor, drogas, moradia, etc.
  • Chemsex: prática sexual sob a influência de drogas psicoativas (metanfetaminas, Gama-hidroxibutirato (GHB), MDMA, cocaína, poppers) com a finalidade de melhorar e facilitar as experiências sexuais.

Como posso começar a usar a PrEP?

Procure um serviço de saúde e informe-se para saber se você tem indicação para PrEP. 

Profilaxia Pré-exposição (PrEP)

PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é uma estratégia para prevenir o HIV. Ela funciona como uma espécie de “escudo” para o corpo, preparando-o para combater o vírus HIV antes mesmo de um possível contato.

Como funciona

A PrEP é um comprimido que combina dois medicamentos (tenofovir + entricitabina). Eles bloqueiam as vias que o HIV usa para infectar o corpo. Existem duas formas de usar a PrEP:

PrEP Diária:
Você toma um comprimido todos os dias. É ideal para quem tem exposição frequente ao HIV.

PrEP Sob Demanda:
Usada apenas em ocasiões específicas.

O esquema é:

  • Tome 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação sexual.
  • Depois, tome mais 1 comprimido 24 horas após a primeira dose.
  • Por fim, tome o último comprimido 24 horas depois da segunda dose.

IMPORTANTEPrEP sob demanda é recomendada principalmente para homens cisgêneros, gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), além de pessoas não binárias e mulheres trans (que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol).

Quem pode usar

Qualquer pessoa em situação de maior risco para o HIV pode se beneficiar. Alguns exemplos são:

  • Pessoas que têm histórico de infecções sexualmente transmissíveis (IST).
  • Prática de chemsex (sexo sob influência de drogas como MDMA, GHB, etc.).
  • Pessoas que já precisaram usar a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) várias vezes.
  • Quem nem sempre usa preservativo.

Tempo para fazer efeito

Mulheres cisgênero e pessoas trans: PrEP diária começa a proteger após 7 dias de uso.

Homens cis e mulheres trans (sem hormônios de estradiol): Proteção começa 2 horas após tomar a primeira dose de 2 comprimidos.

Se você acha que a PrEP pode ser para você, procure uma unidade de saúde do SUS ou um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). Eles oferecem a PrEP gratuitamente e garantem o acompanhamento necessário.

Dica: Faça o teste regularmente para HIV e outras ISTs. A PrEP protege apenas contra o HIV, mas a prevenção completa inclui preservativos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

HIV positivo significa que vou ter AIDS?

Não necessariamente. Soropositivo para HIV significa que o vírus está presente. Com tratamento antirretroviral adequado, a maioria dos soropositivos acabam por não desenvolverem  AIDS e tem expectativa de vida próxima à da população geral.

Paciente com HIV deve fazer a vacina HPV?

Sim. As diretrizes recomendam a vacina HPV para pessoas vivendo com HIV até 45 anos, independentemente do histórico de infecção — pois reduz o risco de novos tipos e de lesões de alto grau.

Por que o HPV é mais difícil de tratar em quem tem HIV?

Porque o sistema imunológico — especialmente os linfócitos T CD4+ — é o principal mecanismo de controle do HPV. Com HIV, esse sistema está comprometido, permitindo que o HPV se espalhe, resista ao tratamento e recidive com mais frequência.

Como saber se tenho HIV?

Pelo teste. A maioria das infecções é assintomática por anos. Todo paciente com HPV ou outra IST deve ser testado para HIV de rotina — o diagnóstico precoce é decisivo para o prognóstico.

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